E agora para algo completamente diferente: PS no Governo

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Não é em qualquer lugar que um partido perde as eleições e chega ao Governo. Há que admirar este tipo de coisas. É como um eclipse milenar ou um alinhamento planetário. E tal como nesses casos, há que esperar que não seja o fim do mundo.

Não sou de direita, note-se. Considero-me bastante esquerdalho, todavia estas coisas confundem-me. Quando uma equipa de futebol termina o campeonato em primeiro lugar é suposto ser coroada campeã; é isso que se espera e mais nada. É assim que deve ser. Neste caso a equipa que terminou em primeiro – apesar da curta distância para o segundo – foi também coroada campeã para uma semana depois lhe ser retirado o título porque provavelmente já não vai jogar lá muito bem na próxima época. Basicamente foi isto que aconteceu, e para uma cabecinha tonta como a minha (e da vastíssima maioria dos portugueses), este paralelismo ajuda a compreender a situação.

Ora, este tipo de jigajogas só é possível num país onde o diálogo político começa e acaba nestas alianças de circunstância durante períodos eleitorais. Nunca se vê em Portugal um partido de esquerda aplaudir uma medida sugerida por um partido de direita, mesmo que o bom senso e a lógica nos diga que sim senhor, os reaças desta vez têm razão. O mesmo funciona ao contrário, obviamente, e ainda acrescentando acusações de demagogia.

É claro que as propostas da esquerda serão sempre demagógicas, porque o próprio socialismo assenta as suas bases em pressupostos demagógicos – antes de mais porque supõe que todo o socialista é o socialista perfeito, detentor de todos os valores morais e socialistas perfeitos, mas na verdade o que há mais para aí são socialistas bardamerdas.

E é claro também que as propostas de direita vão sempre na direcção da austeridade para com os trabalhadores e subserviência europeia simplesmente porque são uma cabada de betinhos que nunca sujaram as mãos com essa estranha coisa que é o trabalho. Ainda assim, a parte da subserviência europeia não estou certo que tenham inteira culpa – são contas de um rosário que começou a ser rezado ainda por Mário Soares, enquanto Presidente da República.

Ora, quero com isto tudo dizer que realmente só num país onde grassa a política com telhados de vidro e com muita pedra no chão é possível que estas coisas aconteçam. Se não fossem os políticos do faz de conta que são talvez encontrassem pontos comuns de interesse nacional, para o bem de todos debaixo desta bandeira, e tivéssemos um Governo de diálogo e entendimento ao invés de chegarmos ao triste ponto de previsibilidade republicana: o PSD e CDS nunca conseguiriam aprovar nada, mas nada, em Assembleia até eventualmente caírem do pedestal.

Nada na política portuguesa me surpreende. Até vou mais longe e aposto que muito brevemente vamos começar a ouvir falar outra vez de José Sócrates como candidato a um poleiro qualquer.

Todavia, e apesar de o cenário político português ser uma espécie de cruzamento trágico entre os Monty Python e David Lynch, vai ser giro ver como António Costa se vai manobrar por entre os dedos de Jerónimo e Catarina. Vai vai.

Imagem: Dorfpolitiker , Wilhelm Leibl, 1877

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Mudam-se os tempos, mudam-se as educações

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No meu tempo a figura de um professor era coisa para ser respeitada. A criatura era dotada de poderes quase sobrenaturais de adivinhação e possuía uma sabedoria digna de um Matusalém de beira de estrada, mas um Matusalém todavia. Do alto dos meus seis anos, o ser parecia ainda mais austero e rabujento que um nazi com prisão de ventre, insónias e privação de nicotina – conquanto fosse adicto da substância, obviamente. As minhas memórias dessa altura e dos três anos subsequentes são de apanhar porrada de criar bicho, ora do macho alfa da turma, ora desse malévolo demónio que era o professor, que neste caso foi sempre fêmea, valha-nos a Providência. É claro que essas memórias foram empoladas pelo tempo e pela falta de outras mais felizes, mas o que importa é que ainda me lembro por que levei aquelas castanhadas da professora do 3º e 4º ano e tenho a perfeita noção que foram merecidas. Havia ainda uma régua curta de madeira, apelidada de Santa Luzia, pois o simples vislubre da dita cuja faria o mais abjecto dos zurrinos saber na ponta da língua todos os pronomes pessoais e alguns advérbios. Levei umas quantas reguadas tanto na mão esquerda como na direita por não saber ou fazer o que devia e quando devia, e apanhei uma ou duas caroladas por falar demasidado tanto em quantidade como em volume sonoro, e o mais incrível – pasme-se, caro leitor – é que cheguei aos 32 anos perfeitamente normal. Bem, tão normal também não, mas asseguro-lhe que não tenho traumas nenhuns decorrentes dessa altura e agradeço agora publicamente às mãozinhas que me chegaram a roupa ao pêlo e à bendita Santa Luzia que muito me abriu os olhos em horas complicadas.

Nessa altura, e durante os 12 anos que se seguiram lembro-me que muitos colegas e conhecidos meus tinham como objectivo na vida ensinar alguém como outros alguéns os haviam ensinado. Nessa altura, talvez mais inocente ou romântica, ou simplesmente tontinha, havia uma certa nobreza no acto de transmitir conhecimento, havia respeito pela figura de um professor, e eram essas duas coisas que os meus colegas e conhecidos almejavam.

Hoje, mais de vinte anos passados sobre essa bendita ignorância, ser professor é ser menor. Em termos de respeito social e institucional a profissão fica algures entre caixa de supermercado e operador de telemarketing; quando alguém me responde “professor” à pergunta “qual é a tua profissão” não consigo evitar devolver um “coitado (a)”. Hoje, mais de vinte anos passados sobre aquelas benditas reguadas na palma da mão, um professor tem de aturar de bico calado todo o tipo de ignominias de rudes petizes e livre-se ele (a) de tentar responder por via verbal ou física: habilita-se a nunca mais dar uma aula e ainda levar uns murros no focinho por conta de pais piores que os filhos. No meu tempo, os pais educavam em casa e o professor educava na escola. Simples. Hoje quem educa é a televisão, o feicebuque e a pleicetachione. Veremos daqui a uns tempos o que se ganha com isso. Provavelmente professores piores que ministros e ministros piores que criancinhas mal-educadas.

Imagem: “Portrait of the Professor of Medicine Jan Bleuland,” Pieter Christoffel Wonder, 1808

Breve bitaite político-económico

Há tanta coisa errada neste portugalzinho enfezadinho que nem sei por onde começar. Ninguém sabe nem nunca soube. É uma salganhada tão grande de patifarias e tontices político-económicas que nem dá para ver onde está a ponta do emaranhado de porcaria onde estamos metidos. Parece que ninguém, durante os 38 anos de democracia, se lembrou de pensar um bocadinho à frente, nos anos vindouros e nas consequências que as decisões de hoje têm no amanhã. Parece que andamos constantemente a fazer buracos para tapar outros, deixando uma esteira de abutres bem pançudos e outros tantos à espreita da sua oportunidade. Só que este tipo de atitude, contra todas as expectativas, não é um ciclo, nem vicioso nem viciado. É uma espiral. E como qualquer espiral que se preze vai ficando mais apertada em cada rotação até se deixar soçobrar no vazio. Seja esse vazio o que for, decerto que não anda muito longe.

Não digo que precisemos de novos políticos – sabe deus bem como íamos parar à mesma situação num abrir e fechar de olhos;  não digo que seja preciso sair do Euro e mandar a Angela às urtigas, pois não estamos sozinhos no turbilhão; o que eu digo é que precisamos de políticas económicas novas, reluzentes e frescas, em vez desta baseada nos anos 30 e num Mundo que já não existe. Precisamos, Portugal e a Europa, desesperadamente de um olhar novo apontado a um problema antigo. Atinem, foda-se. Antes que seja tarde demais. Para todos.

Há Clios e Clios, ó palhaço!

A cabecinha abençoada do Francisco Assis, escondida atrás das lunetas e daqueles olhinhos pequeninos – só poderiam ser pequeninos os olhos de quem vê o mundo tão pequenino -, proferiu aquela barbaridade desdenhosa dos Renault Clio e desde então que não me sai da cabeça. Fica longe de ser um comentário inocente e bem perto de uma visão digna do maior desprezo. Então que mal faria aos deputados socialistas andarem de Clio? Aposto que a malta dos PCP, BE e Verdes não vão de Audi nem BMW para a Assembleia da República (pelo menos não todos) e não são menos pessoas por isso. A visão do Assis e da maioria das criaturas infames que se sentam naqueles cadeirões de madeira lustrosa reflecte os resquícios do marialvismo da função pública, tantas vezes satirizado por Gogol e por outros da mesma craveira, remanescente da Primeira República e do inolvidável Estado Novo. Quem manda tem que andar bem montado, não interessando o dinheiro que é preciso para selar essa montada, muito menos se for dinheiro dos contribuintes. Quem manda tem que se pavonear no seu cavalo dourado em frente da populaça que puxa a mula enlameada que por sua vez puxa o seu pão da terra, ou dos RSIs e demais subsídios, pouco importa, o que importa é que é a plebe que puxa a sua montada neste país de brincar. E vamos ver até quando.

Estamos tão mal servidos de políticos que a alternativa óbvia ao governo de direita são gajos que têm nojo de Clios. Pelamordedeus, não há uma praga bíblica que caia em cima desta gente?

Retratos de Mundividência

Segue esta reflexão ao ritmo errante e frenético das boas reflexões, mesmo daquelas que nada concretizam – dizem os entendidos que escrever faz bem e comer fruta ainda faz melhor – e se o Pedrito Passos Coelhito pode prosar como um mancebídeo do preparatório depois de nos (tentar) enrabar à grande outra vez, também eu posso discorrer verborreias inconsequentes e nem sequer tenho as intenções sodomitas do Passos. Certo? Certo. Ainda sobre esta situação do Pedro, quero dizer mais uma coisita: pá, não basta a enrabadela? Ainda temos que apanhar com apologias e mais apologias, faladas ou tristemente escritas, de quem chibata o povo e depois lhe passa a mão pelo pêlo porque o povo esse é do mais manso que há e ele (o Pedro), bem sabe que Ele (o Povo) nunca morderá quem manda, e se o fizer é com florinhas e cantigas de amigo para depois termos uma história bonita para contar aos netinhos.

Não percebo do que se admira o comum português. Refiro-me obviamente às jiga-jogas financeiras e do aperto do cinto, da austeridade e do rápido definhar do país. Ora, se há trinta e oito anos que vendemos isto à Europa para podermos curtir rapidamente a recém conseguida liberdade; se há trinta e oito anos esbanjamos em bricabraques e pechisbeques tudo o que essa venda rendeu; se desde há trinta e oito anos se continua a votar nos mesmos cabrestos e ainda se arranja tempo para os fazer regressar como se fossem filhos pródigos; se há trinta e oito anos que conhecemos os chulos e os econopatas da nossa praça e não lhes espetamos as cabeças em paus; se deixamos isto tudo acontecer porque joga o Benfica, o Sporting e o Porto, ou porque a tesuda da Juliana Paes agora é a Gabriela-que-lhe-levava-com-o-pau-de-canela, se deixamos isto tudo acontecer, dizia, é porque somos mesmo pequeninos e aquelas épocas épicas das Conquistas, das Descobertas e das Revoluções não passaram de meros acidentes de percurso, meras singularidades do Universo, e se assim é, a nossa sina, o nosso fado, é sermos pobrezinhos de bolso porque de facto somos pobrezinhos de espírito.

Mas não temai, meu desesperado cidadão. Não seremos pobrezinhos para sempre. Sabe porquê? Porque mais tarde ou mais cedo, de preferência neste ano da desgraça de 2012, uma raça extraterrestre de uma inteligência e bom senso muitas vezes superiores aos dotes humanos descerá dos céus e queimará todo o dinheiro à face da Terra. Aquele que existe em papel e metal barato e aquele que existe dentro dos computadores. Estou a falar a sério. Tive um sonho.

Imagem: IWDRM

Três coisas em franco declínio e que merecem um estalo na cara a ver se acordam

1) – Sporting Clube de Portugal. Depois de se trocar de presidente e de treinador (es), e de se gastar 30 milhões de mérreis de moeda nova em jogadores de aparente superior linhagem, chega-se à conclusão que ficou tudo na mesma. Houve uma altura em que realmente parecia que não, mas depois do desaire na Luz as coisas voltaram gradualmente à mesma pauta. Meia equipa a anhar, outra meia a tentar fazer alguma coisa não vergonhosa e Polga. Aqui começa a parte que não percebo: Anderson Polga. Depois de ter sido o principal responsável pelo pior resultado de uma equipa na Liga dos Campeões (agregado de 12-1 contra Bayern Munique aqui há uns anitos) ainda ali anda nem se sabe muito bem a fazer o quê. É óbvio que o rapaz não tem a consistência psicológica para jogar numa equipa como o Sporting, e como eu digo sempre, ser do Sporting é para quem pode e não para quem quer. O mesmo se aplica a quem quer jogar, principalmente se for defesa central. Extrairam-se os quistos sebáceos que eram Postiga e Djaló, mas ainda lá ficou este e algo ainda pior: um enorme e pelos vistos inoperável cancro psicológico. A culpa desse cancro não será com certeza só de Polga, mas é óbvio que algo de muito errado se passa numa equipa que se quer candidata a ganhar títulos e que apresenta os resultados que apresenta. Domingos tem muito trabalho pela frente se ainda tiver tempo de o fazer, pois que a malta começa a ficar deveras enfastiada com a coisa. Se bem que contratar o Daniel Sampaio ou outro pedopsiquiatra de renome não seria nada mal pensado, não senhor. Fica a sugestão à Gerência.

2) – Portugal. Outra troca na Gerência e ainda com a adição de uma Troika carregada de papel mas que só o dá se a Gerência cumprir as merdas orçamentais. Perdão, metas, metas orçamentais. Não me vou pôr para aqui a esmiuçar todas as medidas tomadas, nem as populares, nem as impopulares, nem as  nojentas, nem as simplesmente bacocas, até porque nem sigo assim tanto as notícias para o poder fazer com a propriedade e solenidade necessárias. Mas há algo que eu não percebo nesta conjuntura toda e começa com estes pressupostos: impostos altos refreiam o consumo; consumo refreado e a indústria da hotelaria, por exemplo, vai abaixo; se a indústria hoteleira, por exemplo, vai abaixo, mais desemprego haverá e mais subsídios de desemprego o Estado terá de pagar. Entenda-se que a indústria hoteleira não compreende só cafés, restaurantes e hoteis, mas também todas as outras empresas que lhes servem de suporte. E num país que em 1986 se autoproclamou Turístico, este efeito cascata parece-me francamente pernicioso. É isso que não percebo: em vez de se encorajar o consumo aumentam-se os impostos?

3) – Aníbal Cavaco Silva. Às vezes acho que é uma personagem do Gato Fedorento e ultimamente tenho achado isso vezes demais para acreditar na saúde mental da pessoa. Primeiro diz que se vê à rasca para pagar as contas, tendo uma reforma de 12.000 euros à pála do Banco de Portugal. Depois, que não percebe como Portugal chegou a este estado, ele que teve dois mandatos como Primeiro Ministro e agora outros dois como Presidente. Será que esses anos todos não chegaram para perceber como se pode chegar a este estado? Pois eu digo-lhe, senhor Aníbal: chega-se a este estado através da burrice colectiva que permitiu você, eminentíssimo cânone da inutilidade, ser eleito mais 3 vezes depois da primeira. Um conselho, Senhor Presidente da República? Tome os comprimidos e deixe-se estar sossegadinho a comer o seu bolo rei com o cházinho de erva-príncipe e não fale de boca cheia, por favor.

Numa nota assim mais abrangente: não será melhor fazermos outra Manifestação para Restaurar a Sanidade? Se tivesse a certeza que resultava metia-me já no carro a caminho da Avenida da Liberdade.

O terrorismo tem um rosto e é bonito:

O rosto, atenção, não o terrorismo em si. No dealbar do novo século – caramba, do novo milénio – e a braços com uma crise cujo precedente tem quase outro século, este tipo de situações é algo prevísivel. Espanta-me sim que um miúdo entre na escola aos tiros por que alguém gozou com os seus calções; já o que Anders Breivik fez, baseando-se num nacionalismo exacerbado e com o apoio de grupos de extrema-direita que pululam nas internetes, é prevísivel de um ponto de vista pragmático: tipo, esta merda está toda fodida e é preciso abanar o barco. Como? Atacando a merda de democracia que nos trouxe aqui. É tão catártico quanto tétrico. Atente nas palavras anteriores dando ares de que se sabe do que se fala.

Adiante.

Esta famigerada crise já não é só económica. Começa a ser social também e já se vêem vislubres de uma crise cultural. Espalha-se como um cancro infectando todos os orgãos, mesmo aqueles que por razões civilizacionais parecem imunes, como a tolerância. Breivik  personificou essa doença na perfeição. Não é um tresloucado mujahedin vindo de uma montanha distante, não é um guerrilheiro núbio de kalashikov em punho, nem um rancoroso e esfarrapado palestino. Breivik é o vizinho do lado. Um miúdo rico, inteligente e bonito – e é isto que assusta mais, a aparente normalidade do indivíduo – que resolveu abanar as estruturas ostentando o estandarte de um neo-ultra-coisinho-nacionalismo que cresce à volta do cancro da crise, como anticorpos enraivecidos que matam o hospedeiro pela febre.

Vamos ver mais coisas destas, sem dúvida, ainda para mais agora que houve um primeiro passo. Podem as autoridades monitorizar o que quiserem que enquanto os sistemas económicos que regulam a direcção e velocidade da rotação da Terra não forem profundamente alterados, estas coisas vão continuar a aparecer em crescendo, até um arquiduque qualquer ser assassinado e depois é que está tudo mesmo fodido.