Tudo merece a segunda oportunidade

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O meu fascínio por cachimbos não é novidade para ninguém, especialmente nos últimos meses. Bem, o simples fascínio de qualquer pessoa por cachimbos já de si não é novidade nenhuma; seja apreciador da arte ou não, nunca um cachimbo espalha indiferença. Voltando ao meu fascínio em particular, desde que comecei esta intrépida exploração o arregalar de olhos à mera visão de qualquer cachimbo tornou-se um acto perfeitamente costumeiro. Passei horas da minha vida a debulhar catálogos on-line de cachimbos que, estando dentro do meu orçamento (de 0 a 60€) e sendo agradáveis à vista (todos), colocava numa lista que ia crescendo desmesuradamente até chegar à enormidade de precisar de 2385 € para riscar todos os itens. Desanimei.

Isto continuou com mais ou menos intensidade até que num belo dia, e com o orçamento ligeiramente alargado, me lancei com o o entusiasmo de uma criança numa loja de doces em busca de um cachimbo para me oferecer de prenda de Natal. Revi a tal lista e todos os cachimbos que nela figuravam. Encontrei mais uns quantos, mas todavia, e muito estranhamente, não gostava suficientemente de nenhum para o escolher em detrimento dos outros. Desanimei outra vez.

Teria “enjoado” os cachimbos? Porventura teria eu sofrido uma overdose visual de cachimbos, uma saturação tal que já não me conseguiria decidir por nenhum? Muito provavelmente. Em mim esse é um fenómeno bem documentado. Mas não. Havia mais qualquer coisa ali.

Voltei atrás no tempo, àquele sábado fresco de verão em que por 10 € comprei 3 cachimbos 3 numa feira de velharias. Todos com bom aspecto, todos impecavelmente limpos, mas com sinais de uso. Então e se eu fosse dar uma volta no Olx? pensei eu. E se comprasse uma data de cachimbos velhos, usados, esfarrapados, coisas medonhas, verdadeiros atentados à higiene pública e à minha própria saúde, e os pusesse novos, lustrosos, limpos, a queimar o mais doce dos Virgínias ou o mais picante dos Latakias outra vez, como se fosse a primeira? Continuei eu a pensar.

Não é caso raro um cachimbo sobreviver ao dono. As madeiras de urze e cerejeira – as mais comuns entre o nobre utensílio – são das mais resistentes deste lado do Universo conhecido, e bem tratadas podem durar dezenas, se não centenas, de anos de boca em boca e de tabaco em tabaco. Por que haveria de gastar eu 50 ou 80 euros num só cachimbo feito certamente por uma máquina computorizada, podendo gastar 10 em 3, com a virtude acrescida de ficar com um objecto já usado; um objecto que já foi amado por alguém, que já foi íntimo de alguém, que partilhou com alguém os mais negros pensamentos e as mais brilhantes alegrias, que já viu melhores dias mas pode pode ver muitos mais e muito melhores. Os cachimbos são objectos pessoais; e pessoais vem de pessoa, individuo, ser humano. O que faltava naquele meu desânimo durante a escolha de um cachimbo era precisamente essa ligação humana. Nenhum cachimbo de 50 euros parece ter sido feito por uma pessoa. Não me pergunte porquê pois não saberia responder-lhe, mas não parece de facto feito por uma pessoa, apesar de ser lindíssimo e bem construído. Já 50 euros em cachimbos na feira da ladra é uma sala cheia, uma cacofonia de histórias de gente que provavelmente passou a vida com aquelas coisas velhas e gastas no meio dos dentes. Nunca conhecerei as histórias, mas não preciso. Os cachimbos, eles próprios, conhecem-nas e mostram-no. A minha ligação com aqueles antigos donos é ténue, tem uma haste de plástico mordido e um corpo de madeira meio queimada. Mas existe.

Lixa de vários grãos, cera, álcool, acetona, escovilhões (às carradas), uma rectificadora manual com acessórios de polir, raspador, lã de aço, Scotch Brite, Super Cola, limas, tintura para cabedal de vários tons e algum jeitinho para a bricolage é tudo o que é preciso para devolver a dignidade a muita pechincha que anda por aí nas feiras da ladra (reais ou internéticas). Parece muita coisa, mas não é mais do que o comum mortal que goste de sujar as mão tem na garagem. E o motivo é nobre.

Imagem: Man Smoking a Pipe, James McNeill Whistler, 1859

De tesouros encontrados em lugares estranhos

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Dizia eu num post ali mais em baixo, e frisava sublinhando num outro logo a seguir, que era extremamente difícil comprar um bom tabaco inglês em Portugal, o que, pensando bem, muita estranheza me causa, já que somos frequentemente invadidos por britânicos muito para lá da meia idade – a altura em que pelos cânones sociais vigentes se pode e deve fumar cachimbo. O que eu não sabia era que afinal é tão fácil arranjar bom tabaco inglês para cachimbo que a verdadeira estranheza surge agora de braço dado com o assombro e o espanto. Passemos à história, então.

Num dado dia de trabalho da semana passada, ia eu todo pimpão corredor afora quando ao passar por dois colegas meus envolvidos numa qualquer busca por um qualquer utensílio de antanho numa dada gaveta, o meu olhar foi capturado por uma familiar forma redonda. Não conheci o rótulo nem logótipo, mas por um segundo estuguei o passo pensando “uma lata de tabaco de cachimbo? Não pode…” e embrenhei-me entre os meus colegas usando a questão “Quésta merda?” como “Com licença, meus caros, deixem-me alcançar este objecto estranho e saciar a minha curiosidade”. Um deles prontamente me responde “podes ficar com isso que é meu, está aí há anos e ia mandá-lo pró lixo”. Agarro na dita lata à espera de ouvir o chocalhar de porcas, parafusos, anilhas e outra quinquilharia avulsa, mas não. Nem um som se soltou da lata que, apesar de estar toda amassada e deslavada, ostentava o seguinte rótulo ainda com réstias de uma realeza há muito perdida:

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Pipe tobacco? Really? Mas quem é que foi a besta que andou aos pontapés a isto? Ninguém, responde o outro, este gajo é que não sabia abrir isso e até apertou a lata num torno. Ora bem, grandes técnicos de manutenção aeronáutica, não haja duvida. Admoestando o ígnaro, abri a torturada lata e inalei. O impacto foi o mesmo de quando abri a lata de Old Dublin mas com outra ordem de magnitude. Chiça, que isto deve ser um ganda material, disse eu sem saber muito bem como justificar a minha declaração. Estava seco e quebradiço como areia do Mojave, mas exalava uma ordem simples: fuma-me!

Então levei-o para casa. Tirei-o com muito cuidado da lata e do invólucro de papel e coloquei-o numa tigela – sem bater nem mexer muito para não quebrar demasiado a palha cheirosa. Passou a noite com um pano húmido por cima. No outro dia, já com grande parte dele bem hidratado e nada quebradiço, dei-lhe a volta para que os flocos mais seco também se humedecessem e assim ficou até à noite, quando uma parte dele ardeu num dos meus cachimbos.

Hoje já vou na quarta cachimbada e posso dizer com toda a certeza: grande tabaco. Apesar dos anos passados muito longe do acondicionamento ideal, e depois de rehidratado, está – imagino eu – como novo. Acende bem, queima uniformemente, não morde a língua e o sabor é o mesmo do princípio ao fim do fornilho: corpanzudo que chegue, com o “ardor” oriental e uma certa cremosidade que me surpreende. Mais bruto que o Old Dublin mas igualmente prazeiroso. Um verdadeiro achado, portanto.

Então, como dizia Almeida, o Garret, fumemos!

Imagem: Eduard von Grützner, Falstaff am Tisch mit Weinkrug und Zinnbecher, 1910

Peterson Old Dublin (ceci n’est pas une critique)

Peterson_Old_Dublin_Pipe_Tobacco1Antes de mais vale a pena ressalvar a dificuldade em comprar uma mistura inglesa não aromática dentro deste rectângulo à beira mar plantado. A menos que o leitor vá a uma tabacaria especializada, tipo Casa Havaneza, por exemplo, digo-lhe que não será no quiosque da esquina nem na estação de serviço que encontrará esses pitéus. Ao que parece o fumador de cachimbo português só fuma tabacos aromatizados (mais ou menos) artificialmente. Só. É evidente que não há nada de errado em fumar aromáticos, principalmente dentro de casa e em ameno convívio, porém gostava de comprar coisas como Dunhill 965 ou Three Nuns com a facilidade que compro um Sail Black ou qualquer Borkum Riff. Adiante.

Precisamente da Casa Havaneza trouxeram-me de encomenda o Peterson Old Dublin, segundo o qual a senhora da loja jurava a pés juntos que era aromático e que não existia tal coisa como tabaco de cachimbo não aromático. Coitada. Obviamente nunca abriu uma lata do dito cujo e depois uma outra de Original Black Vanilla para saber a diferença. A culpa não é só dela: é também de quem a deixa trabalhar numa loja, que se quer especializada, sem formação. A tradição dos mestres tabaqueiros, da qual a supracitada loja se autroproclama parte sobrevivente, dita que quem está atrás do balcão saiba aconselhar o cliente mediante as suas preferências e desejos, e para isso não pode apenas saber o preço com IVA dos tabacos e charutos expostos. Tem que saber bem mais que isso e ser bem mais que uma simples, ainda que atenciosa, empregada de balcão. Mais uma vez, adiante.

O Peterson Old Dublin é caracterizado por diversos outréns como mistura tipicamente inglesa, composto de Latakia cipriota, Golden Virgínia e Orientais Turcos, com um fumo fresco, leve e picante. Um bom tabaco, dizem, para quem quer deixar os aromáticos e explorar as misturas mais fortes e complexas. Além disso tem excelentes críticas no site Tobacco Reviews, a bíblia comunitária do tabaco de cachimbo. Todavia o abrir da lata foi chocante. Habituado que estou aos tabacos aromatizados de quiosque, o cheiro do Old Dublin pareceu-me horrível. Caramba, é mesmo só tabaco! Cheirei-o outra vez, desconfiado. Sim, é mesmo só tabaco. Contudo não é de todo o tabaco que vem num cigarro. É punjente, claro, mas há doçura ali. E especiarias também. E mais qualquer coisa que o meu olfacto ainda pouco treinado não consegue identificar. Então é isto a que chamam de “fabuloso aroma de uma mistura de Virgínias, Orientais e Latakia“? Pronto, está bem. Fumêmo-lo então. E sabe que mais? Não tenho fumado outra coisa.

A fumada é igualmente chocante mas no sentido inverso: é doce e suave. Sente-se que se está a fumar tabaco e não uma sobremesa; é encorpado mas não o suficiente para se mastigar nem deixar algum travo amargo na língua. Não morde, mas sentem-se as especiarias dos orientais. Imagino que aquela silhueta de sabor denso seja o Latakia mas não sei precisar e só me surge de quando em vez. Acende bem e arde até ao fim sem pegar fogo ao cachimbo, nem mesmo ao maçarocas. Já me disseram que cheira a eucalipto ardido, mas ainda não dei por nada. Em suma, é um belíssimo tabaco. Se o cachimbeiro leitor quiser deixar os aromáticos e passar para o chamado tabaco de homem, o caminho (um dos caminhos, na verdade) é pelo Peterson Old Dublin.

P.S.: O departamento gráfico da Peterson devia arder no inferno por ter trocado esta lata por aquela que encima o post. Morram. Pim!

Cachimbo: bravo (e antigo) mundo novo

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Primeiro, claro, veio a curiosidade que normalmente dá em gato morto mas neste caso deu numa expedição fascinante. Depois de uma breve pesquisa a simples curiosidade virou intriga. Virgínias, Burleys, Cavendishes, Latakias e Periques, ervas demoníacas misturadas de várias formas e tratadas de diferentes maneiras, consoante a preferência, moda, estatuto social e até religião ( há religião no tabaco, veja-se o caso dos tabacos Presbyterian e Three Nuns, aha). Enfim, inúmeros mistérios se desenrolavam à minha frente e eu cada vez mais encantado. Não resistindo, comprei um cachimbo – uma peça barata de cerejeira com uma haste manhosa em acrílico, mas nada mau para começar – e o resto da parafernália, claro, tabaco, filtros de carvão e escovilhões .

Depois veio o grande desafio: acender o tabaco e não o cachimbo. Depois outro ainda maior: manter o tabaco aceso sem acender a língua. A teimosia persistiu e os desafios foram superados. Descobri, por exemplo, que os tabacos que os principiantes preferem são também os mais difíceis de manter acesos devido à elevada humidade dos aromáticos. Entretanto já adquiri mais uns quantos cachimbos, três de urze numa feira de velharias, um de maçaroca de milho e um outro de urze, novo, lindíssimo e de marca alemã (temos que contribuir para a economia dos tipos se não quem nos emprestará dinheiro, certo?). Gosto do cachimbo como objecto e estou ainda a descobri-lo como utensílio, já que muitas das suas diferentes formas implicam também diferentes maneiras de fumar e até diferentes tabacos.

E, tal como me tenho andado a encher de cachimbos, também tenho andado a experimentar diferentes tabacos. Como disse, começa-se pelos aromáticos. No meu caso, Skandinavik Aromatic Mixture, Borkum Riff Black Cavendish, Holland House Aromatic e Sail Black. Praticamente comprei tudo o que de novo encontrei nas tabacarias. Agora percebo que poucas diferenças há entre eles, mas há uns melhores que outros, obviamente. Além disso, toda a gente gosta do cheiro destes tabacos em chamas.

A ideia agora é trocar definitivamente o cigarro (analógico, que o electrónico há muito que está encostado e nem sei muito bem porquê) pelo cachimbo. Poupa-se o pulmão e retira-se mais prazer a partir do vício da nicotina. Mas para já é explorar os raros tabacos (em Portugal) de mistura não aromática sem a batota de essências adicionadas: Virgínias, Burleys, Cavendishes, Periques e Latakias em sintonia uns com os outros, ou sozinhos, ou os outros com os uns, tal e qual bons vinhos com as diferentes castas e amadurecimentos. É nesses tabacos, segundo leio, que acontece a verdadeira magia.

Depois logo se vê no que dá.

Imagem: Raoul Edmond Mettling, Cavaleiro Fumando Cachimbo, 1894 (pormenor)