[Mini] Contos

O Homem da Batina Negra

O ribombar dos canhões e o estrépito das espingardas havia cessado. Os únicos sons no ar eram gemidos moribundos e alguns, poucos, longínquos, gritos desesperados. A poeira e o fumo misturavam-se com o cheiro punjente da pólvora e com o aroma adocicado de carne humana queimada, dando à atmosfera uma densidade que se mastigava melhor do que se respirava. O Inverno ganhava terreno ao Outono mas nem uma leve brisa bulia na mórbida calmaria daquele amanhecer plúmbeo.

E ele caminhava solenemente pelo meio dos seus mortos. Todos seus compatriotas. Todos seus irmãos. (Continuar)

O Poço Tapado

Aquele poço aterrorizava-o desde que se lembra. Ficava dentro de casa, encostado à parede exterior da fachada principal que dava para a Rua do Poço Tapado. Estava sempre, e muito obviamente, tapado por uma pesada laje de granito negro e dele nunca saiu uma única pinga de água, pelo menos que soubesse. Não sabia, e não podia saber porque nunca lhe disseram, qual a razão para aquele poço estar tapado e se era o mesmo poço cuja particularidade havia dado o nome à rua; velha, muito velha a rua, uma das primeiras da vila talvez, quando o planeamento urbano ditava que se construíssem as casas bem perto umas das outras, organizadas em intricadas e tortuosas ramificações partindo de um único ponto: um castelo há muito decrépito. O poço estava agora tapado, mas em alguma altura havia de ter estado aberto, de entranhas ao sol, a dar água a quem precisasse, e talvez estivesse mesmo na rua antes de ser engolido pelas paredes da casa. Não sabia porque o tinham tapado, nem quem o havia feito, mas agradecera-lhe em silêncio muitas vezes há muitos anos atrás quando era ainda miúdo. Aquele pedaço redondo de granito negro encimado pela tal laje da mesma rocha metamórfica, simplesmente arrepiava-lhe o espinhaço de uma maneira que até fazia impressão. Lembra-se bem disso. Lembra-se de ir passar férias para aquela casa quando os avós ainda eram pessoas de saúde e de não conseguir estar perto do dito cujo sem sentir uma enorme vontade de fugir dali. E era o que fazia na maioria das vezes; das outras a presença do avô ou da avô por perto dava-lhe a segurança e a vergonha suficientes para não desatar a correr que nem um louco. Não se lembra todavia de ser repreendido por esse terror que agora achava um perfeito e completo disparate, mas lembra-se dos acidentes que aconteciam por vias do pânico: tropeções, despistes a alta velocidade, quedas aparatosas, jarros, copos, pratos partidos e uma certa vez até a própria cabeça. Que parvoíce, pensava agora rindo e abanando a cabeça. Porém, sem demasiado desdém. Aquele poço ainda exercia uma qualquer influência num nível muito abaixo da consciência; já não o aterrorizava, mas a sua presença impunha-lhe respeito e reverência. Trocara o puro terror pelo assolapado temor. (Continuar)

O Capitão e a Escuna

A Escuna não era grande coisa, o Capitão sabia-o. Precisava de umas melhorias aqui e ali, dizia, mas a verdade é que só com muito boa vontade alguém chamaria aquele monte de madeira podre de navio. E ele assim a tratava. Servira-o bem, tanto o Capitão à Escuna como ao contrário. Não fosse o Capitão e aquele barquito jamais teria passado a quilha por tanto recife magnífico, ou passeado as suas retalhadas velas por praias tão brancas. Não fosse aquele capitão e a Escuna poderia estar já repleta de corais e peixes estranhos; ou pior, poderia estar a servir no transporte de escravos no continente negro para aquilo que os homens estranhamente chamavam de civilização. Não fosse aquela bem-aventurada Escuna e o Capitão poderia já estar no estômago de muitos peixes diferentes; ou pior, na masmorra de algum bandido de peruca prateada. (Continuar)

O Naufrágio

Impossível. Se não impossível, altamente improvável. O que é facto é que aconteceu. O Capitão acordou numa praia de areia branca com um oceano turquesa pela frente. Como teria ido ali parar era coisa que não recordava. Mas se de facto estava agora sentado numa praia de areia branca, completamente fora do seu ambiente natural de madeira a ranger e cordas a esticar, só uma coisa poderia ter acontecido: naufragara. A sua Escuna, a sua maravilhosa e fiel Escuna tinha ido visitar as profundezas abissais e deixara-o ali entregue à Providência que ela não podia ajudá-lo mais. (Continuar)

Carta a um Jornal

Eu, M., dirijo esta carta a Vossa Excelência, director do jornal J. não com o intuito de ser publicada, mas sim com a intenção de limpar a minha própria alma de qualquer sombra de remorso de que possa vir a sofrer. Não que eu tenha perpetrado alguma espécie de acto condenável pelas justiças ou pelas morais, mas acontece que presenciei algo de incrivelmente extraordinário e o meu espírito não sossegará enquanto for o único na posse desse conhecimento. Então, quem melhor do que o director de um jornal para descortinar se a população merece ou não saber o que se passou no dia 26 de Junho na vila de S.? Entrego-lhe a si, de boa vontade, esse fardo. (Continuar)

De Sombra e Freud, o Sigmundo

A Sombra agarra-me enquanto caminho. Faz-me tropeçar e cair. Ri-se de mim, a puta. De joelhos e mãos no chão esforço-me por me lembrar que essa Sombra não existe. É a sombra de uma Ilusão – a ilusão que eras Tu – e assim sendo, como nada nasce de coisa nenhuma, a Sombra, a terrível Sombra, não existe. Sou eu que tropeço em mim mesmo. Suspiro e levanto-me. (Continuar)

Do Outro Lado da Cortina

Podia jurar que dormitei apenas por uns segundos em frente ao computador. Durante esse tempo a minha alma decerto se tresmalhou, ou aconteceu outra coisa qualquer que ultrapassa grandemente a minha compreensão e mesmo a minha imaginação. Acordei, olhei para o monitor e o meu coração parou. Onde dantes estava um extenso texto sobre as propriedades piezoeléctricas do mineral quartzo estava agora outra coisa completamente diferente. Não sei o que verdadeiramente se passou, arrepiam-me até ao tutano a diversas possibilidades, mas não posso deixar de reproduzir o texto que escrevi enquanto não era eu. (Continuar)

A Rapariga do Cabelo Estranho

A menina apertou as mãos contra o peito e não conteve um esboço de sorriso que ninguém viu. A mãe, assustada, escondeu-a atrás das costas, consciente da inutilidade daquele acto. Já se ouviam os passos sincronizados, uma tenebrosa marcha vinda da penumbrenta álea de velhos eucaliptos plantados por alguém já caído no oblívio. A turba aproximava-se furiosa. Vinham pela menina e sabe Deus o que lhe fariam aquelas gentes rudes e ígnaras do campo. (Continuar)

O Pentagrama e a Queda de Khalant

Na igreja de S. Pedro, que coroa a elevação do castelo de Arraiolos, existe um estranho marco em pedra aparentada com granito ostentando um pentagrama em alto relevo. O modo como a dita pedra está colocada sugere a existência de um túmulo, coisa que não existe, segundo as pesquisas arqueológicas na área, e que não foram poucas. O porquê da existência de um símbolo pagão na parede de um templo cristão foi algo que sempre me intrigou. Procurei durante muito tempo uma explicação para a existência de tal objecto e nunca obtive qualquer pista satisfatória. Gente douta no assunto limitava-se a encolher os ombros e a discorrer sobre os diversos povoados que ali tinham existido, sobre o templo romano que a cristã igreja fora outrora, mas nada concreto, nada factual sobre o estranho marco. (Continuar)

O Sentido

Pensou no nome dela durante dias a fio. Imaginou cada letra a ser desenhada lentamente, como se uma pena invisível e incomensurável fizesse nascer cada letra a partir do vazio, e tão devagar que poder-se-ia dizer que mundos infinitos eram criados a cada nova linha traçada. Pensou tanto tempo no nome dela que a própria palavra deixou de fazer sentido. Sentiu-se aliviado. Depois decidiu fazer o mesmo com outras palavras. (Continuar)

Olghoi-Khorkhoi, o Temível Verme

Não sabe qual é o seu propósito no mundo. A bem da verdade nem sequer sabe o significado da palavra “propósito”. Sabe fazer o que sabe fazer e é muito pouco, mas a verdade é que o pouco que faz fá-lo como ninguém. Acorda de tempos em tempos, sem sequer perceber porquê, deambula pelo seu vasto domínio e enche a pança até cair no profundo sono sem sonhos, um sono que por vezes demora séculos, mas para ela, a verdadeira Senhora das Areias, sabe-lhe sempre a pouco. Acorda sempre a custo, sempre mais sonolenta do que queria; como agora. Estica o seu possante corpo alongando ao máximo do seu comprimento. Sente as vértebras a estalar, sente cada músculo ligado a cada tendão dando sinal de presença. No instante que antecede o total relaxamento muscular solta um rugido inominável que ninguém ouvirá: Olghoi-Khorkhoi em todo o seu esplendor. Tanta magnificência insuspeita debaixo daquelas areias! Soubessem os homens o que verdadeiramente se oculta debaixo da superfície e de tempos a tempos fariam romarias para apreciar o prodigioso acordar da besta. Depois sofreriam uma morte violenta, sem dúvida, mas o preço a pagar pelo vislumbre de tamanha grandeza nunca poderia ser baixo. (Continuar)

O Génio do Tecto

Aquilo saiu do tecto como se se tratasse de uma bolha enorme. Caiu no chão e depressa adquiriu uma distinta forma humanóide. Eu estava atónito, colado às costas da cadeira, boquiaberto. Aquilo dirigiu-se a mim pavoneando-se qual Travolta em miniatura. «Porquê essa cara de espanto? Não sabes quem eu sou?» perguntou-me. Não fui capaz de devolver qualquer resposta inteligível. (Continuar)

A Eleição e o Presidente Honesto

O dia da eleição chegou. A população exultava; votar era giro. Como se não bastasse ser um domingo, o dia do pavoneio por excelência, ainda estava um radioso dia de sol. Era tudo brilho e glamour: a melhores peles sintéticas saíram finalmente do armário para fazer companhia às melhores gravatas, aos melhores lenços, aos melhores blazers, aos melhores chapéus e à melhor maquilhagem que o mercado oriental conseguia proporcionar. Cortesias diversas e exageradas eram distribuídas a quem nem sequer um olhar merecia numa terça-feira comum, Boa tarde, como está sôtor?, Muito bem, obrigado senhor engenheiro, e essa saúdinha como vai?, Mas que fabulosa écharpe, minha cara, está esplendorosa, já votou? Oh, mas é claro que sim, minha querida, desde os 18 anos que nem penso noutra coisa, sabe? (Continuar)

O Aeronauta

O céu carregado de nuvens mais negras que o fundo do Universo tapavam qualquer claridade estelar. Um silêncio lúgubre apenas interrompido pelo marulhar de ondas fracas no recuar da maré. Havia uma tensão indescritível no ar. Não era tempestade nem calmaria, mas uma mistura estranha das duas. O Náufrago dormia profundamente o costumeiro sono sem sonhos. Preferia assim do que sonhar, como aconteceu durante mais tempo do que desejava, com aquele dia em que viu a sua Escuna desaparecer na linha do horizonte. (Continuar)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s