Para que raio serve um tablet?

Começa tudo com uma pequenina suspeita, tipo “eu acho que até me dava jeito ter um tablet”. Depois começa-se a investigar sobre o assunto, sempre com a grande dúvida: para que raio serve um tablet? Sendo que já tenho dois computadores, uma Playstation Portable e um telemóvel com um serviço razoável de internet, para que raio precisaria eu de um tablet?

Mas a necesidade vai crescendo, sem se dar por ela. À medida que vamos invstigando e namorando os milhentos modelos da gerigonça, essa necessidade vai aumentando e aumentando e aumentando até que invariavelmente se esturram umas dezenas de euros numa porcariazinha que parece um telemóvel gigante. E o que eu comprei nem para fazer chamadas dá (exceptuando pelo Skype, claro).

Então para que raio serve um tablet?

a) Literatura. Banda desenhada e prosa a granel. Sacam-se umas aplicações janotas e organiza-se a biblioteca – que, ainda parecendo uma coisa amaricada, é algo que me assiste. Arranjam-se uns livros para as prateleiras virtuais e depois é desfrutá-los até cairem os olhos. Não é o mesmo que o papel, mas é muito melhor e mais confortável que ler no computador.
b) Navegação Web (e todas as merdices associadas). A navegação pelo browser é bastante aceitável, e quando complementada com aplicações, como a do Twitter e Youtube, ainda fica melhor. Os downloads de torrents também são exequíveis mas empastelam tudo o resto que estejamos a fazer -talvez por culpa do processador, digo sem perceber muito disto.
c) Estar sozinho numa esplanada. Esta é quase autoexplicativa. Se estiver sozinho e sem nada para fazer numa esplanada depressa me aborreço e vou para casa. Assim, até a bateria acabar, sou rapazinho para aguentar mais um bocado e aproveitar a soalheira.
d) Audiovisual. Apesar de serem apenas 7″ a visualização de filmes é bastante agradável e os gráficos deste modelo são muito melhores que os do meu portátil. Ajudará a isso, claro, o ecrã de pequeno tamanho. O som é definido e de óptima qualidade quando se usam auscultadores (mesmo uns gamados dos autocarros internacionais).
e) Portabilidade. Com seis horas de bateria e 350 gramas de peso não haverá coisas muito mais portáteis que isto.

Na verdade um tablet serve para o mesmo que os outros pedacinhos de tecnologia citados lá em cima: não serve para nada até termos um. Depois disso parece que não podemos viver sem ele.

Modelo: Bq Maxwell Plus.

Nota: este post foi escrito na íntegra no tablet, usando a aplicação do WordPress. Contra as minhas expectativas escreve-se bastante bem tendo em conta que nunca usei nada que não tivesse teclas.

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Breves considerações sobre futebol

Sporting, tanto de mau como de bom

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Ainda não temos equipa. Existe ali qualquer coisa que nos permitiu fugir à catástrofe de uma (outrora provável) descida de divisão, mas equipa ainda não temos. Há fragmentos e esperanças de um futuro risonho espalhadas pelos vários sectores; uma ou duas certezas mas ainda muita gente que infelizmente está a mais no plantel. Livremo-nos deles, digo eu. Carrillo, Jéffren, Labyad, Boulahrouz e Rojo estão claramente em subrendimento – os primeiros porque querem, já que jogam nas suas posições básicas; o último convertido a central que só com Ilori ao lado conseguiu alguma (pouca) tranquilidade. Joãozinho e Miguel Lopes chegaram ao Sporting numa altura muito conturbada e deram (e dão) o que tinham. Sendo que as alternativas aos dois não estavam a cumprir não me posso queixar muito de nenhum. Todavia, não me parece que tenham o nível necessário para a equipa que o clube merece. Note-se ainda que tendo em conta o nível geral da equipa hoje em dia penso que estão claramente na média e, à falta de melhor fiquemos com eles, ora pois. Quanto a Wolkswinkel, tenho pena que saia desta maneira porque acredito que com uma equipa a sério por trás poderia render o que se esperava dele desde o início, ou muito mais. Não acredito que seja tão mau quanto às vezes parece.

A próxima época está aí à porta. Limpe-se primeiro a casa – como tem estado a acontecer – e haverá tempo para planear possíveis aquisições e regressos dos “exilados”. Aposte-se nos valores da casa – como tem estado a acontecer – e vamos ver no que dá. Temos treinador e presidente novos. Pior que esta época não pode correr.

Benfica, e a insustentável leveza do (quase) ser

FC PORTO - BENFICA 29 JORNADA LIGA  2012/13

A arrogância paga-se caro. Se desde o jogo com o Marítimo a lampionagem já andava com o pito aos saltos, o empate com o Estoril e a derrota no Dragão, vieram pôr as coisas noutra perspectiva. Uma perspectiva que não é estranha a nenhum lagarto que há uns anos sofreram inimagináveis tormentas às mãos dos benfiquistas: não bastava termos perdido três competições numa semana, ainda tivemos que levar com as bocas foleiras dos grunhos encarnados. Por isso, e só por isso, bem feito. Ainda podem ser campeões, obviamente, mas do cagaço já não se livram.

Mas também quem quer mesmo ser campeão nunca joga a “fiar-se no empate”. Jorge Jesus pode ser o messias que os benfiquistas dizem mas quanto a mim (e até agora não tive provas do contrário) é um burgesso que não tem capacidade para treinar um clube com a dimensão do Benfica. Na hora H tem tendência para falhar e ontem não foi excepção.

E concordo com Pinto da Costa. Tragam a taça da Liga Europa, mas a Taça de Portugal era bom que fosse para Guimarães. E o campeonato? Tanto se me dá. Já tive o meu regozijo e não sou cruel.

Sir Alex Ferguson, o prefixo não é por acaso

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Vinte e seis anos à frente do que muitos consideram (eu incluido) ser o maior clube do mundo. Não vale a pena discorrer sobre as estatísticas assombrosas de Ferguson, já todos as ouvimos dezenas de vezes. O que interessa aqui é que foi com ele – e Cantona – que me apaixonei pelos Red Devils há muitos anos atrás. Desde esse jogo que segui atentamente a carreira da equipa e do Sir e até agora só tenho motivos de “orgulho”. A palavra aparece entre aspas porque não sei se tenho orgulho no clube ou em mim por ter reconhecido a nobreza e o carácter do sempiterno manager do United e do símbolo que veste. Vinte e seis anos a treinar o mesmo emblema não é pêra doce. Vi como a equipa mudou do frio tacticismo de Roy Keane e companhia até ao festival anglo-latino da actualidade; a prova que mesmo um treinador muda a forma de pensar o jogo durante a carreira. Emocionei-me com a firmeza que agarrou Cristiano Ronaldo o mais que pôde e a classe com que bebia um bom vinho com Mourinho antes dos confrontos das suas equipas. O homem é de facto um senhor, um Sir, de pleno direito. Merece a estátua e todas as homenagens que lhe fizerem. Merece os aplausos de pé e as lágrimas dos adeptos. Merece sobretudo ser seguido e servir de inspiração a quem vem atrás, naquele clube ou noutro qualquer. Sai pela porta grande e, apesar das saudades que vai inevitavelmente deixar, espero que Moyes honre aquela cadeira. A herança é pesada, de facto.

Thank you Sir. For everything. God bless you.

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Transmetropolitan: é por estas merdas que leio Banda Desenhada

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É difícil descrever o que Transmetropolitan é. Cyberpunk chapado, mas essa era fácil. O cenário é claramente pós-tecno-qualquercoisa, e os acontecimentos baseados nesse universo são tão alucinantes que temos a certeza de já os ter visto, ou pelo menos algo parecido, num qualquer filme obscuro de ficção científica; só que em Transmetropolitan surgem num outro nível. Aliás, a questão é mesmo essa: níveis. Imensos níveis, uma quantidade ínfima de idiossincrasias que habitam o universo de Transmetropolitan, sempre a chafurdar no grotesco e na misantropia. Política, religião, ciência, filosofia e tecnologia são temas recorrentes, mas num nível – lá está o tal nível – peculiar. Todos os temas supracitados são elevados a um extremo quase inimaginável quando subvertidos pelo Homem. Em Transmetropolitan, por exemplo, é normal haver gente que tem sexo com máquinas e máquinas que são capazes de produzir as próprias drogas e consumi-las; há vacinas contra o cancro e chips temporários de protecção contra doenças endémicas; a nossa alma pode ser transferida para uma nuvem de nanobots e flutuarmos por ali como poeira ao vento e transformarmos-nos e criarmos o que quisermos (porque os nanobots são capazes de misturar os átomos certos para construir qualquer objecto). Há religiões criadas a partir de tudo e todos os tipos de perversões sexuais estão disponíveis (exceptuando a pedofilia, obviamente). Gatos com duas cabeças que fumam e querem ter relações com seres humanos, seres humanos que querem ser extraterrestes (daquele tipo magricelas de olhos pretos e grandes), pistolas laser que atacam a intestinália da vítima, podendo mesmo prolapsar. É um nunca mais acabar de fabulosa maluqueira, portanto.

Spider Jerusalem, o derradeiro jornalista (para o bem e para o mal)

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This morning I found a lump in my left testicle that sings ‘Twinkle twinkle little star’ over and over.

Alguém ao telefone com Spider Jerusalem

Também não é fácil descrever Jerusalem. Só um Universo como o de Transmetropolitan poderia parir um tipo assim. Lunático, sarcástico, misantropo, amante da escatologia e das drogas pesadas (principalmente das que só existem ali), leal a quem considera amigo e cruel a quem o trai, jornalista brilhante e fanático apenas por espalhar a Verdade. Nua e crua; quanto mais nua e crua melhor. Gosta que se indignem com ele, gosta que os leitores se nauseiem e vomitem com as suas palavras, por que a Verdade é mesmo assim: revoltante e, na maioria das vezes também, nojenta.

Journalism is just a gun. It’s only got one bullet in it, but if you aim right, that’s all you need. Aim it right, and you can blow a kneecap off the world…

Spider Jerusalem

Diz-se que Spider Jerusalem é baseado em Hunter S. Thompson, escritor e protagonista da epopeia Delírio em Las Vegas, e, tendo em conta as referências espalhadas discretamente por Transmetropolitan, diria que é uma suspeita mais que fundada.

Transmetropolitan, e Spider com ela, atiçam-me a imaginação e ocasionalmente fazem-me cair o queixo ou rir às gargalhadas. às vezes são as três ao mesmo tempo. Já outras obras dos mesmos mestres – Warren Ellis e Darick Robertson – me tinham fascinado e pregado ao ecrã do computador (sim, sim, sou pobrezinho e não posso comprar todas as edições em papel), mas nada como esta série. Obrigado Ellis e Robertson.

E você, meu leitor degenerado, posso não ser o Spider Jerusalem mas a Verdade está aqui toda e você já devia estar a pensar em como arranjar os 60 volumes da estória e comprar tudo a dobrar para me oferecer metade. Afinal de contas quem é que lhe mostrou isto, foda-se?

“Here we are now, entertain us…”

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Chegámos a 2013, Muitos pensaram que nunca chegaríamos, mas chegámos. Não me querendo alongar naqueles balancetes afoleirados que se costumam fazer nestas alturas, diria que o ano transacto foi um ano de sementeira. Andou-se muito tempo de rabo no ar a colocar com cuidadinho pequeninas sementes numa terra um tanto insalubre. Vi algumas dessas sementes mirrar ao simples contacto com a terra, outras ainda se aguentaram um bocado mas foram dar ao mesmo, todavia outras há que começam a fazer despontar frágeis rebentos ao sol. Ora, chegando a 2013, contra todas as expectativas dos maias, ou da Maya, ou o raio que o parta, a única coisa que resta é cuidar desse nabal e fazê-lo crescer rijo e forte. Sem água de mais nem de menos, sem sol a mais nem a menos, não o proteger demasiado mas evitar a todo o custo que a burra chegue às filhozes e o gato às couves, e vice-versa. Agora começa o trabalho a sério com a distinta característica agrícola, para bem da metáfora: se isto der merda não haverá colheitas este ano.

Bom 2013 a todos.

Obrigado, conlicença.

Alfa Centauri a uma bolha de distância

Lembras-te do E.T.? Mora ali naquele risco.

Aprende-se na escola e na maioria dos programas de televisão – com a óbvia excepção da Casa dos Segredos – que nada viaja mais rápido que a luz. E de facto ainda não se encontraram provas do contrário, apesar de Usain Bolt tentar constantemente contrariar esse axioma. Ora, dito isto, que nada se move mais rápido que a luz, sobram-nos poucas alternativas no que diz respeito a viajar pelo Universo numa escala humanamente confortável. Mas há alternativas, todavia.

A teoria

Imagine então que em vez de nos movimentar-mos numa dada distância, dobramos o espaço e o tempo à nossa volta de forma a que o nosso destino nos surja à frente, como pura magia ou a mais comum das ficções científicas. Atenção, que isto em teoria é possível: “nada se move mais rápido que a luz, mas o espaço-tempo pode ser expandido e contraído a qualquer velocidade” , diz Harold White, o gajo da NASA que anda a ver se encontra a tal galáxia mesmo muito distante.

Uma bolha warp – uma bolha de diâmetro controlado que distorce o espaço-tempo à sua volta – pode ser criada usando a formula postulada por Miguel Alcubierre em 1994 e a forma da Dobra Espacial. Pode ser criada, mas ainda não foi; isto é simples teoria e dedução. Mas é a partir daí que tudo se cria, certo? Ora, como se pode ver na imagem abaixo, expande-se o espaço-tempo de um lado e contrai-se do outro (curva positiva e curva negativa, respectivamente) com o veículo estacionado numa porção de continuum inalterado. Assim, a montanha chega a Maomé (literalmente) e os passageiros terão a sensação de movimento mas sem qualquer aceleração porque de facto não se movem!

A bolha de Alcubierre, expandindo e contraíndo o expaço-tempo à sua volta

Depois da teoria-base, vamos ao resto. Matematicamente falando, foi também postulado que a quantidade de energia necessária para se obter a bolha warp seria estupidamente elevada, equivalente à massa de Júpiter, vá, e não seria gasóleo com certeza. Os cientistas chamam a esse combustível matéria exótica, claramente porque ainda não sabem bem do que se trata. Será bio-diesel? Ou gasolina 2798 octanas? Veremos.

Voltando ao nosso amigo Harold White, o tipo descobriu – matematicamente – que alterando a forma do anel energético de Alcubierre que cria a bolha warp, da original superfície estreita para a forma de um donut mais espesso e oscilando-o, a quantidade de energia necessária para criar a dita bolha e a controlar diminui dramaticamente. Tão dramaticamente que deixamos de precisar de um planeta gigante de matéria exótica para precisarmos apenas de umas centenas de quilos. Sim, a matemática é mesmo fascinante.

“Chewie, charge the hyperdrive”

Com a teoria toda posta no papel e confirmada a sua plausibilidade através dos modelos matemáticos vistos e revistos, é altura de vestir a bata branca e trancar o laboratório por dentro. Usando um interferómetro de Michelson-Morley, dispositivo criado em 1887 (!) para medir perturbações microscópicas no éter, hoje conhecido como espaço, White espera detectar ele também as micro bolhas-warp que tentará criar com os seus lasers e anéis de capacitadores cerâmicos carregados com dezenas de milhar de volts. Caramba, aquilo é que deve ser um laboratório interessante!

Portanto, está tudo a postos para a chegada da nova era espacial. Agora é esperar, sem deixar de notar que estamos – Harold White e o Mundo – a um passo de atestar mais uma vez que é a ficção científica que guia a Humanidade e não as futilidades que nos enchem os ecrãs de televisão e os computadores. Apesar das crises económicas e de resultados desportivos da outrora grande agremiação futebolística, vivem-se tempos excitantes.

Mas o que acontecerá quando White conseguir de facto criar uma bolha warp? Olharemos para as estrelas ou continuaremos a olhar para o vazio que teimamos em ser?

Breve bitaite político-económico

Há tanta coisa errada neste portugalzinho enfezadinho que nem sei por onde começar. Ninguém sabe nem nunca soube. É uma salganhada tão grande de patifarias e tontices político-económicas que nem dá para ver onde está a ponta do emaranhado de porcaria onde estamos metidos. Parece que ninguém, durante os 38 anos de democracia, se lembrou de pensar um bocadinho à frente, nos anos vindouros e nas consequências que as decisões de hoje têm no amanhã. Parece que andamos constantemente a fazer buracos para tapar outros, deixando uma esteira de abutres bem pançudos e outros tantos à espreita da sua oportunidade. Só que este tipo de atitude, contra todas as expectativas, não é um ciclo, nem vicioso nem viciado. É uma espiral. E como qualquer espiral que se preze vai ficando mais apertada em cada rotação até se deixar soçobrar no vazio. Seja esse vazio o que for, decerto que não anda muito longe.

Não digo que precisemos de novos políticos – sabe deus bem como íamos parar à mesma situação num abrir e fechar de olhos;  não digo que seja preciso sair do Euro e mandar a Angela às urtigas, pois não estamos sozinhos no turbilhão; o que eu digo é que precisamos de políticas económicas novas, reluzentes e frescas, em vez desta baseada nos anos 30 e num Mundo que já não existe. Precisamos, Portugal e a Europa, desesperadamente de um olhar novo apontado a um problema antigo. Atinem, foda-se. Antes que seja tarde demais. Para todos.

Coisas para sobreviver aos serões de inverno

Podia desatar a comentar cada uma dessas coisas de uma forma literada e concisa; poderia dizer que o Walking Dead está muito forte, mas também o Peter Bishop está bruto que nem uma carrada de lenha, e o mesmo se passa invariavelmente com o Anakin Skywalker e com o William Adama nos respectivos universos. Digo simplesmente que estas quatro coisinhas valem a pena serem visionadas, cada uma à sua maneira, obviamente, e se disser mais que isso vou de certeza estragar surpresas a quem (ainda) não é fã das supracitadas séries. É que se me alongo mais não me contenho e acabo por dizer que a Lori morre de uma maneira menos parva do que na BD e que o Peter chipado quase me faz humedecer a roupa interior. Vê? Não me consigo conter…

P.S.: Uma destas séries passa em directo no Youtube. Adivinhe qual e clique na imagem correspondente. Parabéns, ganhou doze minutos e tal de diversão galáctica.

Já não se respeitam os Filhos das Trevas

“Vou só arranjar as unhas e já vou para a cama, querida.” – Conde Orlok (Nosferatu, 1922) 

Já não há vampiros como dantes. Não se ria, que estou a falar bem a sério. Aqueles vampiros sedutores, cheios de classe, verdadeiras figuras de estilo, que num sussurro faziam colapsar qualquer resistência das suas vítimas; bem como os seres sinistros cuja sombra evocava o mais profundo terror e uma alma paralisada pelo medo, faleceram todos. Caçados talvez por Blade, Buffy e pela melhor coisinha que se consegue meter dentro de um fato de cabedal, Seléne, esses vampiros charmosos e/ou medonhos deram lugar a criaturas desenxabidas, pobres reflexos de Brad Pitt e companhia, e sem sequer assustar metade do que consegue fazer Béla Lugosi no seu Drácula. Agora a vampiragem é composta por gajos aparentemente normais, numa tentativa de “acagaçar por proximidade” – fazendo o espectador acreditar que qualquer pessoa com que nos cruzemos na rua pode ter uma costela draculea -, chorões, destroços emocionais, chatos e aborrecidíssimos. Os que não são tão humanizados são uns autênticos patifes que em modo de ataque fazem sair uma careta medonha e uma miríade de dentes pontiagudos; em suma: ou são aborrecidos ou são criaturas abjectas sedentas de hemoglobina e com um grande problema de gestão de raiva e humores. Dão pinotes e viruetas que envergonham qualquer acrobata shaolin a bem de uma acção que se quer dinâmica e mexida, e esta é a única habilidade que lhes reconheço como agradávelzinha sendo também transversal às várias espécies de vampirídeos do século XXI.

“Sou pouco boa, sou!” – Selene (Underworld, 2003)

Portanto, trocaram-lhes o estilo pelo kung-fu, a sensibilidade aos raios ultravioleta pela capacidade de se misturarem na multidão, a sinistra obscuridade por uma bolachinha de água e sal e um carioca de café na esplanada do jardim. Transformaram um ser que cujo mero conceito provocava arrepios no espinhaço por bebés chorões e grunhos burros que nem uma porta.

Fazendo sucessivas extrapolações e ligações e inferições pelas diversas lendas vampíricas, chega-se à conclusão que os vampiros existem há milhares de anos. A maioria deles viu o mundo crescer e cresceu com ele. Deveria haver uma espécie de reverência quando lidamos com criaturas quase tão antigas como o Homem. Essas personagens deveriam ter uma profundidade intelectual que quase nos fizesse baixar a cabeça em vénia quando privamos com elas, mesmo que seja através de uma tela ou ecrã. A classe e altivez devem ser espontâneas e intrínsecas pois derivam directamente da sua distinção de criatura secular, ou milenar, dependendo dos casos, fazendo com que a personagem nos prenda a atenção. Bem sei que o Daniel Day-Lewis não pode interpretar todos os vampiros do cinema, mas caramba, ninguém se esforça minimamente para respeitar um ser que contém no seu âmago enciclopédias inteiras de História. Já imaginou o valor de séculos de conhecimento na primeira pessoa?

Custa-me que não se discuta mais estas merdas.

“Eu sei lá se é os chineses se é o caralho, menina!” #1

Este blog dá-me água pela barba. Não estou a brincar, dá mesmo. Primeiro pela dificuldade em escrever um post. Não que esteja depauperado a um nível físico que me impeça de escrever; é mais um impedimento intelectual, apesar de também não ter a passarinha sossegada no que diz respeito a muitos assuntos. Reflicto muito, quero com isto dizer. Por exemplo, tenho uma opinião formada e fundamentada por diversos exemplos sobre o estado do Estado, ou do desgoverno do Governo, como preferir; tenho também, como qualquer sportinguista que se preze, mesmo aqueles de pacotilha, uma ideia sobre as soluções a adoptar pela distinta agremiação futebolística; tenho até, veja só, uma pequena gambiarra de azeite virgem extra que derrama alguma luz sobre o ponto em que a Humanidade, toda ela, se encontra, para onde vai e o que pode fazer e acontecer para mudar o destino. A minha lamentável questão é: o que faço eu com estas ideias? Escrevo-as aqui, repetindo o que se diz por todo o lado tornando-me apenas mais uma voz na cacofonia e correndo o risco, como a maioria dos pensadores, de nunca chegar ao fundo da questão, tipo remendar o Titanic com pensos rápidos?

Constatar o óbvio não é a minha praia – como se alguma fosse – e dizer e redizer que o que é preciso são soluções de ruptura, testículos, tomates e colhões para quebrar os inúmeros ciclos viciosos e os cambalachos que há décadas e séculos vêm atrofiando a capacidade de evolução (do país, do Sporting, da Civilização) é dizer pouco mais que nada.

Mas que raio, se é isso que precisamos, e é, tenho que sublinhar a ideia. Se não o fizermos (país, Sporting e Civilização), se não dermos o murro na mesa, o pontapé no caixote, o tiro no escuro e sei lá que mais frases feitas do género, aproximar-nos-emos ainda mais rápido do centro do maëlstrom onde nos enfiámos sem querer, por ingenuidade ou ganância, e no fundo desse abismo não existe mais nada para além do oblívio. Ou Alberto João Jardim a dançar nu para toda a eternidade (desculpe, mas é a minha visão do primeiro círculo do Inferno).

O que me preocupa mesmo, pela sua dimensão e volume de almas penadas, é a Humanidade (aposto que pensava que ia dizer Sporting, mas não confunda o ego de um lagarto com o de um lampião, por favor). A Humanidade, dizia está num óptimo caminho para transformar em realidade 99% das distopias sonhadas pelos visionários da literatura dos séculos passados, quando na verdade deveríamos estar, porque temos todas as condições para isso, a trabalhar na realização das utopias. Deveríamos olhar-nos, e principalmente comportar-nos, como uma espécie civilizada, a única que pode dobrar e torcer leis da Natureza, a única que pode explorar outros ambientes que não o seu, caramba, até pode viajar no espaço!, mas em vez disso limitamos-nos a ser ligeiramente mais evoluídos que 7 mil milhões de babuínos que conseguem sonhar mas não sabem viver. Apenas sobreviver.

E ali na grafonola está a rodar isto. Só por causa das merdas.

Há Clios e Clios, ó palhaço!

A cabecinha abençoada do Francisco Assis, escondida atrás das lunetas e daqueles olhinhos pequeninos – só poderiam ser pequeninos os olhos de quem vê o mundo tão pequenino -, proferiu aquela barbaridade desdenhosa dos Renault Clio e desde então que não me sai da cabeça. Fica longe de ser um comentário inocente e bem perto de uma visão digna do maior desprezo. Então que mal faria aos deputados socialistas andarem de Clio? Aposto que a malta dos PCP, BE e Verdes não vão de Audi nem BMW para a Assembleia da República (pelo menos não todos) e não são menos pessoas por isso. A visão do Assis e da maioria das criaturas infames que se sentam naqueles cadeirões de madeira lustrosa reflecte os resquícios do marialvismo da função pública, tantas vezes satirizado por Gogol e por outros da mesma craveira, remanescente da Primeira República e do inolvidável Estado Novo. Quem manda tem que andar bem montado, não interessando o dinheiro que é preciso para selar essa montada, muito menos se for dinheiro dos contribuintes. Quem manda tem que se pavonear no seu cavalo dourado em frente da populaça que puxa a mula enlameada que por sua vez puxa o seu pão da terra, ou dos RSIs e demais subsídios, pouco importa, o que importa é que é a plebe que puxa a sua montada neste país de brincar. E vamos ver até quando.

Estamos tão mal servidos de políticos que a alternativa óbvia ao governo de direita são gajos que têm nojo de Clios. Pelamordedeus, não há uma praga bíblica que caia em cima desta gente?

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