O Homem da Batina Negra

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O ribombar dos canhões e o estrépito das espingardas havia cessado. Os únicos sons no ar eram gemidos moribundos e alguns, poucos, longínquos, gritos desesperados. A poeira e o fumo misturavam-se com o cheiro punjente da pólvora e com o aroma adocicado de carne humana queimada, dando à atmosfera uma densidade que se mastigava melhor do que se respirava. O Inverno ganhava terreno ao Outono mas nem uma leve brisa bulia na mórbida calmaria daquele amanhecer plúmbeo.

E ele caminhava solenemente pelo meio dos seus mortos. Todos seus compatriotas. Todos seus irmãos.

A batalha começara no dia anterior. Há muito que o inimigo havia despido as vestes de aliado e investido pela fronteira adentro sem qualquer resistência. A defesa, apanhada de surpresa pela traição, foi-se compondo aos poucos, mas ainda assim a superioridade táctica e tecnológica do adversário levou sempre a melhor contra os números incontáveis de corajosos soldados defensores. Ali, naquele campo de batalha jogava-se a reviravolta dos eventos, o virar da maré, em que a nação acossada se levantaria com toda a sua força unida e rechaçaria o atacante com coragem e bravura, com aço contra chumbo e gelo contra fogo. Mas não correu como deveria. A inteligência e técnica militar da ofensiva derrotou em apenas um dia o que levou meses a pensar, e agora jazia tudo num campo negro de mortandade.

Jazia tudo, menos ele.

Parou numa clareira entre uma floresta tombada de cadáveres mutilados, peças de artilharia destroçadas e bandeiras rasgadas. Ajeitou a longa batina preta, cofiou a barba e virou a cabeça para cima. Não havia céu nem sol através da espessa camada de fumo. Sorriu.

Admirou o pequeno livro que trazia debaixo do braço; encadernado a couro puído, com dobradiças e fechadura de aço ferrugento. Levantou-o à altura dos olhos e percorreu a capa com a ponta dos dedos saboreando a textura do cabedal. Cheirou-o. Acto contínuo, quase como um ritual melódico, tirou uma pequena chave pendurada de uma corrente de prata que trazia ao pescoço e, vagarosamente, inseriu-a na fechadura. Girou-a e sentiu a pulsação acelerar. Empurrou os óculos redondos e escuros para cima e abriu o livro.

A excitação era crescente a cada página folheada. Eram todas parecidas: de papel de velino finamente curtido, com iluminuras grotescas rodeando o texto que variava entre prosa e verso, escritos numa tinta vermelho-acastanhada. A letra que iniciava cada página era artisticamente capitalizada e orlada a ouro, preenchida com a mesma tinta.

Chegou à pagina que pretendia. Correu o texto com as pontas dos dedos indicador e médio não contendo um sorriso nervoso no final. Se isto não resultar vamos ficar em maus lençois, pensou. Pousou o livro no chão ensanguentado, sentou-se cruzando as pernas e arregaçou as mangas. Do bolso interior da sotaina tirou uma pequena navalha de cabo de madeira. Abriu-a e segurou-a na mão esquerda apontando-a às veias salientes do pulso direito. Começou a murmurar uma oração numa língua que nenhum dos seus irmãos perecidos perceberia, ao mesmo tempo que o fio da navalha fez espirrar um jorro de sangue. Repetiu o processo com o pulso esquerdo e transformou o murmurio em grito tonitruante.

O seu sangue tocou na terra e a terra tocou nos seus cadáveres.

* * *

Sergei Ilyanovitch era um rapaz bonito. Era disputado por quatro raparigas da sua aldeia, não só pela beleza mas também pela inteligência e sagacidade que nele abundavam, apesar da tenra idade. Foi um desgosto terrível quando se soube que o jovem Ilyanovitch tinha sido recrutado de emergência pelo Exército Popular. Aqueles olhos de anjo não foram feitos para verem as misérias da guerra, nem tão pouco aquele lindo cabelo loiro nasceu para ser tapado por um bivaque de soldado raso. Todavia ali estava.

Sergei Ilyanovitch já não era um rapaz bonito. Não depois de um tiro inimigo – ou amigo, pouco importa – lhe ter arrancado parte da cara levando consigo um dos seus magníficos olhos azuis; menos bonito ficou depois de caído no chão e em agonia, um obus inimigo – ou amigo, pouco importa – lhe ter rebentado com as pernas e o ter feito voar umas dezenas de metros até aterrar com o pescoço e um dos braços num ângulo estranho. Sergei Ilyanovitch estava feito num farrapo, literalmente. Cego, estropiado e morto. Todavia isso não o impediu de ouvir uma voz grave chamando por si.

Era uma voz distante e profunda. Não era o seu nome que dizia, mas Sergei Ilyanovitch já não sabia que nome era esse nem sequer o que era um nome. Simplesmente sentia um chamamento e uma vontade irresistível de responder ao apelo. Primeiro um dedo tremeu. Depois outro. Depois o resto. Por fim o peito encheu-se de ar e soltou um grunhido na expiração. Ele e os outros todos. Estava acordado! Ele e os outros todos. Estava tremendamente baralhado, mas sabia que tinha fome. Na verdade não conseguia pensar em mais nada. O seu único objectivo agora era comer. Estava possesso de fome, uma fome como nunca tinha sentido, uma voracidade animalesca e irracional que lhe dominava qualquer vontade e direcionava todos os movimentos e raciocínios para aquilo: tinha que comer algo vivo, algo quente, algo pulsante. Ele e os outros todos.

De fumador a vapeador: explorando o e-fumo

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Há toda uma aura de diz que disse à volta dos agora famosos cigarros electrónicos e isso incomoda-me um bocado.

Primeiro porque até ver a única razão de queixa que ouvi vem das tabaqueiras e lobbies associados; segundo porque a ignorância no seu geral incomoda-me. Antes de mais, deixe-me dizer-lhe uma coisa, fumante leitor: o cigarro electrónico não serve para largar o vício. É apenas uma forma mais saudável de introduzir nicotina no organismo, apesar de poder servir para alavancar gradualmente o desmame. E deixe-me dizer-lhe uma coisa também a si, saudável leitor: sou fumador militante mas no que toca à qualidade do fumo posso afirmar que sou um tanto ou quanto aristocrata. O preço é importante, claro, mas mais que isso é o modo como cada cigarro me satisfaz. Quando fumava tabaco em maço, nada se igualava a um SG Gigante. Nada. Depois, por força da economia e do desemprego, mudei-me para o artesanato e experimentei todas as marcas de tabaco, filtros e mortalhas para enrolar até chegar a uma fórmula que ainda hoje é responsável pela primeira dose de nicotina diária: mortalhas da Casa Havaneza, tabaco Amber Leaf e os filtros podem ser de qualquer marca desde que tenham 6 mm. Sou portanto o que se pode chamar de esquisitinho, é um facto, mas se ando a esturricar os pulmões tem de ser como eu quero e gosto.

Acontece que há uns meses comecei a ver malta com aqueles canudinhos estranhos de leds azuis a bafar umas merdas aromáticas. A primeira reacção foi de gozo, obviamente – um gajo não fumar por não ter lume é uma coisa, por não ter bateria é outra. Até que há umas semanas atrás, impelido pelas halitoses muito pouco apreciadas pelo belo sexo, comprei uma gerigonça e um frasquinho de líquido para vapear. Os primeiros bafos não foram agradáveis mas diz-se que o truque está na persistência. Resultado? Fumo um cigarro por dia e passo (muito bem) o resto com a dita gerigonça e os tais líquidos. As minhas necessidades de nicotinoides são satisfeitas, não há sensação de prisão peitoral de manhã nem qualquer tipo de tosse e sobretudo ninguém me manda mascar uma pastilha.

Agora estou prestes a passar para o nível intermediário do fumador electrónico. Há toda uma míriade de factores combinados na qualidade de se vapear um bom vapor e, tal como há uns anos atrás com o tabaco de enrolar, estou em plena exploração. Já sei que tipo de vapor gosto: aroma frutado, pouco propileno-glicol e muito glicerol, nicotina 12 mg/ml. Quanto à máquina (importantíssima na qualidade do vapor) também já descobri algumas coisinhas mas é uma parte demasiado técnica e obscura por enquanto.

Quanto aos benefícios/malefícios, segundo sei ninguém sabe. O fumo de cigarro parece demasiado malfazejo quando comparado com este tipo de vapor, todavia não deixo de estar a introduzir químicos num dos orgãos mais sensíveis do corpo humano. Fica à consideração de cada um.

Por fim, isto é apenas um testemunho muito simples e directo na primeira pessoa sobre a experiência de um e-fumador. Para mais esclarecimentos é pesquisar sobre a coisa e olhe qua já lhe dei umas pistas para começar (sim, estou a falar do propileno-glicol e do glicerol). Durante essa pesquisa ligue dois flitros para poder absorver a melhor informação: atenção aos interesses das tabaqueiras e dos governos que ainda não legislaram nem “impostificaram” a coisa e atenção aos histéricos que dizem “o cigarro electrónico mudou a minha vida” ou “até o Johnny Depp fuma desta merda“.

Ah, o futebol, o futebol….

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Futebol. Essa grande maluqueira que toma conta das pessoas como uma virose parvinha e bacoca, tornando um ser bípede e autoconsciente numa amálgama de células amontoadas ao calhas que por acaso andam e falam.

Começo a nutrir uma certa aversão ao jogo em si graças à quantidade de tempo que cada ser humano gasta – em média – a pensar em futebol. Atenção, o meu sportuinguismo não recuou um milésimo de milímetro, mas a paciência, senhores, a paciência que é preciso invocar para ouvir falar de futebol é insustentável. Aliás, o único tempo que perco com futebol são os 10 minutos que se demora a escrever um texto como este e os 94 minutos semanais de Sporting (por enquanto a Champions é na Antena 1, com uma sinfonia intermitente de máquinas e serralheiros como banda sonora). Mais que isso não, obrigado.

Ainda assim, tenho dois bitaites:

1. Uma vitória com a Dinamarca por 1-0 não apaga o último vexame, mas tem que se começar por algum lado. Infelizmente o português não é grande merda nem a começar nem a acabar coisas se aparecer a Alemanha, a França, a Espanha ou a Albânia. Boa sorte, sôr Engenheiro, e se o Ricardo Carvalho não quiser comer a sopa e fizer birra dê-lhe uns sopapos, sim?

2. O Sporting não vai ser campeão só contando consigo. Meio campo ligeiramente é instável; ataque forte mas quasi-inconsequente; muito trabalho ainda a fazer na defesa. Nota a quem de direito: deveria-se inscrever William Carvalho em sessões de uma qualquer Terapia Cognitiva porque claramente o rapaz apresenta dificuldades. Mas bem, pode ser que Jesus meta a pata na poça ou que se limite a não ter sorte, e pode ser que Lopetegui faça o mesmo. Assim talvez haja uma hipótese. Mas só assim. (Isto é o que eles gostam de ouvir, malta)

Viva o Sporting. Viva o Portugal. Hurra.

E zurra.

Sem título nem conteúdo

Os olhos já não conhecem as linhas; os dedos já não conhecem as teclas. Emaranham-se e tropeçam uns nos outros. Há palavras que querem-precisam-gostam de sair e há tanto tempo que não o fazem que se habituaram a estar sozinhas no sótão de luz apagada e sem clarabóia que leve nesga de sol. Já nem se queixam, coitadas. As últimas que saíram foram disparadas contra papel e fechadas por capa escura ou em folhas digitais apagadas em lágrimas; saíram em lamento, raiva e auto-comiseração. Não é assim que as palavras devem ser lidas. Essas palavras devem ficar trancadas em locais escuros pois foi aí que nasceram e qualquer luz só vai fazer com que enegreçam ainda mais.

Todavia, as palavras que agora querem-precisam-gostam de sair não são assim. Não. Estas são palavras vulgares – pois que palavras muito brilhantes são para serem sussurradas ao ouvido ou em cartas perfumadas -, saídas de um espírito de luminosidade vulgar e estampadas num sítio vulgar. Do qual eu já sentia muito a falta, por acaso.

Para que raio serve um tablet?

Começa tudo com uma pequenina suspeita, tipo “eu acho que até me dava jeito ter um tablet”. Depois começa-se a investigar sobre o assunto, sempre com a grande dúvida: para que raio serve um tablet? Sendo que já tenho dois computadores, uma Playstation Portable e um telemóvel com um serviço razoável de internet, para que raio precisaria eu de um tablet?

Mas a necesidade vai crescendo, sem se dar por ela. À medida que vamos invstigando e namorando os milhentos modelos da gerigonça, essa necessidade vai aumentando e aumentando e aumentando até que invariavelmente se esturram umas dezenas de euros numa porcariazinha que parece um telemóvel gigante. E o que eu comprei nem para fazer chamadas dá (exceptuando pelo Skype, claro).

Então para que raio serve um tablet?

a) Literatura. Banda desenhada e prosa a granel. Sacam-se umas aplicações janotas e organiza-se a biblioteca – que, ainda parecendo uma coisa amaricada, é algo que me assiste. Arranjam-se uns livros para as prateleiras virtuais e depois é desfrutá-los até cairem os olhos. Não é o mesmo que o papel, mas é muito melhor e mais confortável que ler no computador.
b) Navegação Web (e todas as merdices associadas). A navegação pelo browser é bastante aceitável, e quando complementada com aplicações, como a do Twitter e Youtube, ainda fica melhor. Os downloads de torrents também são exequíveis mas empastelam tudo o resto que estejamos a fazer -talvez por culpa do processador, digo sem perceber muito disto.
c) Estar sozinho numa esplanada. Esta é quase autoexplicativa. Se estiver sozinho e sem nada para fazer numa esplanada depressa me aborreço e vou para casa. Assim, até a bateria acabar, sou rapazinho para aguentar mais um bocado e aproveitar a soalheira.
d) Audiovisual. Apesar de serem apenas 7″ a visualização de filmes é bastante agradável e os gráficos deste modelo são muito melhores que os do meu portátil. Ajudará a isso, claro, o ecrã de pequeno tamanho. O som é definido e de óptima qualidade quando se usam auscultadores (mesmo uns gamados dos autocarros internacionais).
e) Portabilidade. Com seis horas de bateria e 350 gramas de peso não haverá coisas muito mais portáteis que isto.

Na verdade um tablet serve para o mesmo que os outros pedacinhos de tecnologia citados lá em cima: não serve para nada até termos um. Depois disso parece que não podemos viver sem ele.

Modelo: Bq Maxwell Plus.

Nota: este post foi escrito na íntegra no tablet, usando a aplicação do WordPress. Contra as minhas expectativas escreve-se bastante bem tendo em conta que nunca usei nada que não tivesse teclas.

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Breves considerações sobre futebol

Sporting, tanto de mau como de bom

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Ainda não temos equipa. Existe ali qualquer coisa que nos permitiu fugir à catástrofe de uma (outrora provável) descida de divisão, mas equipa ainda não temos. Há fragmentos e esperanças de um futuro risonho espalhadas pelos vários sectores; uma ou duas certezas mas ainda muita gente que infelizmente está a mais no plantel. Livremo-nos deles, digo eu. Carrillo, Jéffren, Labyad, Boulahrouz e Rojo estão claramente em subrendimento – os primeiros porque querem, já que jogam nas suas posições básicas; o último convertido a central que só com Ilori ao lado conseguiu alguma (pouca) tranquilidade. Joãozinho e Miguel Lopes chegaram ao Sporting numa altura muito conturbada e deram (e dão) o que tinham. Sendo que as alternativas aos dois não estavam a cumprir não me posso queixar muito de nenhum. Todavia, não me parece que tenham o nível necessário para a equipa que o clube merece. Note-se ainda que tendo em conta o nível geral da equipa hoje em dia penso que estão claramente na média e, à falta de melhor fiquemos com eles, ora pois. Quanto a Wolkswinkel, tenho pena que saia desta maneira porque acredito que com uma equipa a sério por trás poderia render o que se esperava dele desde o início, ou muito mais. Não acredito que seja tão mau quanto às vezes parece.

A próxima época está aí à porta. Limpe-se primeiro a casa – como tem estado a acontecer – e haverá tempo para planear possíveis aquisições e regressos dos “exilados”. Aposte-se nos valores da casa – como tem estado a acontecer – e vamos ver no que dá. Temos treinador e presidente novos. Pior que esta época não pode correr.

Benfica, e a insustentável leveza do (quase) ser

FC PORTO - BENFICA 29 JORNADA LIGA  2012/13

A arrogância paga-se caro. Se desde o jogo com o Marítimo a lampionagem já andava com o pito aos saltos, o empate com o Estoril e a derrota no Dragão, vieram pôr as coisas noutra perspectiva. Uma perspectiva que não é estranha a nenhum lagarto que há uns anos sofreram inimagináveis tormentas às mãos dos benfiquistas: não bastava termos perdido três competições numa semana, ainda tivemos que levar com as bocas foleiras dos grunhos encarnados. Por isso, e só por isso, bem feito. Ainda podem ser campeões, obviamente, mas do cagaço já não se livram.

Mas também quem quer mesmo ser campeão nunca joga a “fiar-se no empate”. Jorge Jesus pode ser o messias que os benfiquistas dizem mas quanto a mim (e até agora não tive provas do contrário) é um burgesso que não tem capacidade para treinar um clube com a dimensão do Benfica. Na hora H tem tendência para falhar e ontem não foi excepção.

E concordo com Pinto da Costa. Tragam a taça da Liga Europa, mas a Taça de Portugal era bom que fosse para Guimarães. E o campeonato? Tanto se me dá. Já tive o meu regozijo e não sou cruel.

Sir Alex Ferguson, o prefixo não é por acaso

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Vinte e seis anos à frente do que muitos consideram (eu incluido) ser o maior clube do mundo. Não vale a pena discorrer sobre as estatísticas assombrosas de Ferguson, já todos as ouvimos dezenas de vezes. O que interessa aqui é que foi com ele – e Cantona – que me apaixonei pelos Red Devils há muitos anos atrás. Desde esse jogo que segui atentamente a carreira da equipa e do Sir e até agora só tenho motivos de “orgulho”. A palavra aparece entre aspas porque não sei se tenho orgulho no clube ou em mim por ter reconhecido a nobreza e o carácter do sempiterno manager do United e do símbolo que veste. Vinte e seis anos a treinar o mesmo emblema não é pêra doce. Vi como a equipa mudou do frio tacticismo de Roy Keane e companhia até ao festival anglo-latino da actualidade; a prova que mesmo um treinador muda a forma de pensar o jogo durante a carreira. Emocionei-me com a firmeza que agarrou Cristiano Ronaldo o mais que pôde e a classe com que bebia um bom vinho com Mourinho antes dos confrontos das suas equipas. O homem é de facto um senhor, um Sir, de pleno direito. Merece a estátua e todas as homenagens que lhe fizerem. Merece os aplausos de pé e as lágrimas dos adeptos. Merece sobretudo ser seguido e servir de inspiração a quem vem atrás, naquele clube ou noutro qualquer. Sai pela porta grande e, apesar das saudades que vai inevitavelmente deixar, espero que Moyes honre aquela cadeira. A herança é pesada, de facto.

Thank you Sir. For everything. God bless you.

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Transmetropolitan: é por estas merdas que leio Banda Desenhada

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É difícil descrever o que Transmetropolitan é. Cyberpunk chapado, mas essa era fácil. O cenário é claramente pós-tecno-qualquercoisa, e os acontecimentos baseados nesse universo são tão alucinantes que temos a certeza de já os ter visto, ou pelo menos algo parecido, num qualquer filme obscuro de ficção científica; só que em Transmetropolitan surgem num outro nível. Aliás, a questão é mesmo essa: níveis. Imensos níveis, uma quantidade ínfima de idiossincrasias que habitam o universo de Transmetropolitan, sempre a chafurdar no grotesco e na misantropia. Política, religião, ciência, filosofia e tecnologia são temas recorrentes, mas num nível – lá está o tal nível – peculiar. Todos os temas supracitados são elevados a um extremo quase inimaginável quando subvertidos pelo Homem. Em Transmetropolitan, por exemplo, é normal haver gente que tem sexo com máquinas e máquinas que são capazes de produzir as próprias drogas e consumi-las; há vacinas contra o cancro e chips temporários de protecção contra doenças endémicas; a nossa alma pode ser transferida para uma nuvem de nanobots e flutuarmos por ali como poeira ao vento e transformarmos-nos e criarmos o que quisermos (porque os nanobots são capazes de misturar os átomos certos para construir qualquer objecto). Há religiões criadas a partir de tudo e todos os tipos de perversões sexuais estão disponíveis (exceptuando a pedofilia, obviamente). Gatos com duas cabeças que fumam e querem ter relações com seres humanos, seres humanos que querem ser extraterrestes (daquele tipo magricelas de olhos pretos e grandes), pistolas laser que atacam a intestinália da vítima, podendo mesmo prolapsar. É um nunca mais acabar de fabulosa maluqueira, portanto.

Spider Jerusalem, o derradeiro jornalista (para o bem e para o mal)

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This morning I found a lump in my left testicle that sings ‘Twinkle twinkle little star’ over and over.

Alguém ao telefone com Spider Jerusalem

Também não é fácil descrever Jerusalem. Só um Universo como o de Transmetropolitan poderia parir um tipo assim. Lunático, sarcástico, misantropo, amante da escatologia e das drogas pesadas (principalmente das que só existem ali), leal a quem considera amigo e cruel a quem o trai, jornalista brilhante e fanático apenas por espalhar a Verdade. Nua e crua; quanto mais nua e crua melhor. Gosta que se indignem com ele, gosta que os leitores se nauseiem e vomitem com as suas palavras, por que a Verdade é mesmo assim: revoltante e, na maioria das vezes também, nojenta.

Journalism is just a gun. It’s only got one bullet in it, but if you aim right, that’s all you need. Aim it right, and you can blow a kneecap off the world…

Spider Jerusalem

Diz-se que Spider Jerusalem é baseado em Hunter S. Thompson, escritor e protagonista da epopeia Delírio em Las Vegas, e, tendo em conta as referências espalhadas discretamente por Transmetropolitan, diria que é uma suspeita mais que fundada.

Transmetropolitan, e Spider com ela, atiçam-me a imaginação e ocasionalmente fazem-me cair o queixo ou rir às gargalhadas. às vezes são as três ao mesmo tempo. Já outras obras dos mesmos mestres – Warren Ellis e Darick Robertson – me tinham fascinado e pregado ao ecrã do computador (sim, sim, sou pobrezinho e não posso comprar todas as edições em papel), mas nada como esta série. Obrigado Ellis e Robertson.

E você, meu leitor degenerado, posso não ser o Spider Jerusalem mas a Verdade está aqui toda e você já devia estar a pensar em como arranjar os 60 volumes da estória e comprar tudo a dobrar para me oferecer metade. Afinal de contas quem é que lhe mostrou isto, foda-se?

“Here we are now, entertain us…”

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Chegámos a 2013, Muitos pensaram que nunca chegaríamos, mas chegámos. Não me querendo alongar naqueles balancetes afoleirados que se costumam fazer nestas alturas, diria que o ano transacto foi um ano de sementeira. Andou-se muito tempo de rabo no ar a colocar com cuidadinho pequeninas sementes numa terra um tanto insalubre. Vi algumas dessas sementes mirrar ao simples contacto com a terra, outras ainda se aguentaram um bocado mas foram dar ao mesmo, todavia outras há que começam a fazer despontar frágeis rebentos ao sol. Ora, chegando a 2013, contra todas as expectativas dos maias, ou da Maya, ou o raio que o parta, a única coisa que resta é cuidar desse nabal e fazê-lo crescer rijo e forte. Sem água de mais nem de menos, sem sol a mais nem a menos, não o proteger demasiado mas evitar a todo o custo que a burra chegue às filhozes e o gato às couves, e vice-versa. Agora começa o trabalho a sério com a distinta característica agrícola, para bem da metáfora: se isto der merda não haverá colheitas este ano.

Bom 2013 a todos.

Obrigado, conlicença.

Alfa Centauri a uma bolha de distância

Lembras-te do E.T.? Mora ali naquele risco.

Aprende-se na escola e na maioria dos programas de televisão – com a óbvia excepção da Casa dos Segredos – que nada viaja mais rápido que a luz. E de facto ainda não se encontraram provas do contrário, apesar de Usain Bolt tentar constantemente contrariar esse axioma. Ora, dito isto, que nada se move mais rápido que a luz, sobram-nos poucas alternativas no que diz respeito a viajar pelo Universo numa escala humanamente confortável. Mas há alternativas, todavia.

A teoria

Imagine então que em vez de nos movimentar-mos numa dada distância, dobramos o espaço e o tempo à nossa volta de forma a que o nosso destino nos surja à frente, como pura magia ou a mais comum das ficções científicas. Atenção, que isto em teoria é possível: “nada se move mais rápido que a luz, mas o espaço-tempo pode ser expandido e contraído a qualquer velocidade” , diz Harold White, o gajo da NASA que anda a ver se encontra a tal galáxia mesmo muito distante.

Uma bolha warp – uma bolha de diâmetro controlado que distorce o espaço-tempo à sua volta – pode ser criada usando a formula postulada por Miguel Alcubierre em 1994 e a forma da Dobra Espacial. Pode ser criada, mas ainda não foi; isto é simples teoria e dedução. Mas é a partir daí que tudo se cria, certo? Ora, como se pode ver na imagem abaixo, expande-se o espaço-tempo de um lado e contrai-se do outro (curva positiva e curva negativa, respectivamente) com o veículo estacionado numa porção de continuum inalterado. Assim, a montanha chega a Maomé (literalmente) e os passageiros terão a sensação de movimento mas sem qualquer aceleração porque de facto não se movem!

A bolha de Alcubierre, expandindo e contraíndo o expaço-tempo à sua volta

Depois da teoria-base, vamos ao resto. Matematicamente falando, foi também postulado que a quantidade de energia necessária para se obter a bolha warp seria estupidamente elevada, equivalente à massa de Júpiter, vá, e não seria gasóleo com certeza. Os cientistas chamam a esse combustível matéria exótica, claramente porque ainda não sabem bem do que se trata. Será bio-diesel? Ou gasolina 2798 octanas? Veremos.

Voltando ao nosso amigo Harold White, o tipo descobriu – matematicamente – que alterando a forma do anel energético de Alcubierre que cria a bolha warp, da original superfície estreita para a forma de um donut mais espesso e oscilando-o, a quantidade de energia necessária para criar a dita bolha e a controlar diminui dramaticamente. Tão dramaticamente que deixamos de precisar de um planeta gigante de matéria exótica para precisarmos apenas de umas centenas de quilos. Sim, a matemática é mesmo fascinante.

“Chewie, charge the hyperdrive”

Com a teoria toda posta no papel e confirmada a sua plausibilidade através dos modelos matemáticos vistos e revistos, é altura de vestir a bata branca e trancar o laboratório por dentro. Usando um interferómetro de Michelson-Morley, dispositivo criado em 1887 (!) para medir perturbações microscópicas no éter, hoje conhecido como espaço, White espera detectar ele também as micro bolhas-warp que tentará criar com os seus lasers e anéis de capacitadores cerâmicos carregados com dezenas de milhar de volts. Caramba, aquilo é que deve ser um laboratório interessante!

Portanto, está tudo a postos para a chegada da nova era espacial. Agora é esperar, sem deixar de notar que estamos – Harold White e o Mundo – a um passo de atestar mais uma vez que é a ficção científica que guia a Humanidade e não as futilidades que nos enchem os ecrãs de televisão e os computadores. Apesar das crises económicas e de resultados desportivos da outrora grande agremiação futebolística, vivem-se tempos excitantes.

Mas o que acontecerá quando White conseguir de facto criar uma bolha warp? Olharemos para as estrelas ou continuaremos a olhar para o vazio que teimamos em ser?

Breve bitaite político-económico

Há tanta coisa errada neste portugalzinho enfezadinho que nem sei por onde começar. Ninguém sabe nem nunca soube. É uma salganhada tão grande de patifarias e tontices político-económicas que nem dá para ver onde está a ponta do emaranhado de porcaria onde estamos metidos. Parece que ninguém, durante os 38 anos de democracia, se lembrou de pensar um bocadinho à frente, nos anos vindouros e nas consequências que as decisões de hoje têm no amanhã. Parece que andamos constantemente a fazer buracos para tapar outros, deixando uma esteira de abutres bem pançudos e outros tantos à espreita da sua oportunidade. Só que este tipo de atitude, contra todas as expectativas, não é um ciclo, nem vicioso nem viciado. É uma espiral. E como qualquer espiral que se preze vai ficando mais apertada em cada rotação até se deixar soçobrar no vazio. Seja esse vazio o que for, decerto que não anda muito longe.

Não digo que precisemos de novos políticos – sabe deus bem como íamos parar à mesma situação num abrir e fechar de olhos;  não digo que seja preciso sair do Euro e mandar a Angela às urtigas, pois não estamos sozinhos no turbilhão; o que eu digo é que precisamos de políticas económicas novas, reluzentes e frescas, em vez desta baseada nos anos 30 e num Mundo que já não existe. Precisamos, Portugal e a Europa, desesperadamente de um olhar novo apontado a um problema antigo. Atinem, foda-se. Antes que seja tarde demais. Para todos.

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